Parcerias academia-empresa, what else?

5 de Novembro 2026

O RAIZ tem desempenhado um papel fundamental na articulação entre a investigação científica e as necessidades da fileira florestal e industrial. Os seus 30 anos de atividade, considera João Crespo, são um bom exemplo de como é possível transformar conhecimento em valor social e económico.

A investigação académica e a investigação aplicada são frequentemente encaradas como realidades distintas. Nos últimos anos, contudo, tem-se assistido a uma evolução muito significativa desta relação. Novas formas de percecionar a criação de valor, o desenvolvimento de ecossistemas colaborativos e a disponibilização de instrumentos de financiamento orientados para a transferência de conhecimento contribuíram para aproximar o mundo académico do tecido empresarial. Atualmente, é amplamente reconhecido que a inovação resulta, em grande medida, da capacidade de integrar conhecimento científico de carácter fundamental com a compreensão das necessidades do mercado e da sociedade.

Neste contexto, o trabalho desenvolvido pelo RAIZ constitui um exemplo particularmente interessante. Ao longo da sua atividade, o RAIZ tem desempenhado um papel fundamental na articulação entre a investigação científica e as necessidades da fileira florestal e industrial. Através da colaboração estreita com universidades, centros de investigação, empresas e entidades públicas, o instituto tem contribuído para transformar conhecimento científico em soluções com impacto direto na produtividade, e na sustentabilidade do setor.

A investigação desenvolvida pelo RAIZ demonstra de forma clara que a criação de valor resulta da capacidade de integrar diferentes tipos de conhecimento e de promover uma abordagem multidisciplinar. Áreas como o melhoramento genético florestal, a gestão sustentável dos ecossistemas, a adaptação às alterações climáticas, a biodiversidade e a bioeconomia constituem exemplos de domínios de atuação com impacto para a empresa, o território e a sociedade.

Apesar dos progressos alcançados, subsistem obstáculos significativos que limitam esta relação academia-empresa. Um dos principais desafios reside na existência de diferentes culturas organizacionais e, por vezes, horizontes temporais. Estas diferenças são naturais, e até desejáveis, mas devem ser articuladas quando é pretendido alcançar um objetivo comum.  Acrescem ainda barreiras administrativas que tornam complexa a concretização de projetos colaborativos. Questões relacionadas com a propriedade intelectual ou o acesso a financiamento podem atrasar processos e reduzir a atratividade das parcerias.

Para potenciar esta relação, é necessário adotar medidas concretas. Defendo há muito tempo que é necessário promover perfis profissionais híbridos, através do reforço da mobilidade de investigadores entre universidades, centros tecnológicos e empresas, favorecendo a circulação de conhecimento e competências. A melhor forma de um académico perceber a cultura e as necessidades de uma empresa é ter vivido essa realidade. O inverso é igualmente verdade.

O futuro da nossa competitividade e sustentabilidade depende, em larga medida, da capacidade de transformar conhecimento em valor social e económico. O RAIZ é um bom caso de estudo, tendo vindo a demonstrar que é possível inovar, aumentar a competitividade e, simultaneamente, promover o desenvolvimento sustentável.

 

João Crespo, Professor da Universidade NOVA de Lisboa