Falta apoio psicológico às populações vítimas dos incêndios

3 de Setembro 2026

Dina Duarte dá voz às populações afetadas pelos incêndios. Chama a atenção para o que costuma falhar após os grandes fogos e para a importância dos Condomínios de Aldeia que, na sua opinião, deviam tornar-se obrigatórios em todas as aldeias.

Na minha perspetiva, enquanto cidadã que sempre viveu em aldeias, a prioridade deveria ser o rescaldo e o corte da madeira ardida, com exceção das espécies resistentes ao fogo. Refiro esta exceção porque, após o incêndio de 17 de junho de 2017 em Pedrógão, presenciei casos de árvores que rebentaram novamente — árvores de fruto (citrinos), medronheiros, oliveiras, sobreiros, entre outras.
A remoção das árvores mortas pelo fogo contribui para a segurança de quem circula nas zonas ardidas e permite a recuperação da vegetação rasteira com as primeiras chuvas. Além disso, cria condições para que, quem tenha essa vontade e possibilidade, replante novas árvores.
Em 2017 vivemos demasiado tempo rodeados de árvores queimadas: algumas só caíram com os ventos fortes do inverno, outras foram cortadas mais tarde, e ainda hoje, oito anos depois, algumas permanecem de pé. A limpeza e corte dos ardidos, e o consequente regresso do verde à paisagem, são também fundamentais para a recuperação anímica de quem vive na região. O manto negro deixado pelo fogo é, além de traumático, profundamente depressivo.

O que costuma falhar no pós-incêndio?

Falham os rescaldos, sobretudo nas áreas ardidas próximas das povoações. Do ponto de vista humano, falta também apoio psicológico às populações vítimas dos incêndios. Muitas vezes, estas pessoas perdem familiares, amigos, animais de companhia ou animais domésticos — que, por sua vez, perdem todos os pastos que os alimentavam.
Para quem vive fora do meio rural, pode não parecer relevante, mas os animais — domésticos e selvagens — fazem parte do nosso dia a dia. Todas as vidas importam e contam. 

Que recomendações deixa para os decisores?

É necessária legislação ou programas que, no pós-incêndio, permitam que, com o consentimento dos proprietários ou, na ausência destes (por abandono ou falta de identificação), as Associações Florestais ou as Autarquias possam assumir a organização e a gestão da floresta.

Considero fundamental tornar obrigatórios os Condomínios de Aldeia em todas as aldeias, com critérios claros para a plantação: espécies que desacelerem a aproximação do fogo junto às povoações; proteção das nascentes de água, regatos e ribeiras, respeitando a biodiversidade natural. As restantes árvores devem ser plantadas de forma ordenada, com espaço para estradões e estradas corta-fogo, que facilitem o acesso aos meios de combate e ajudem a travar o avanço das chamas.
Deverão ainda ser preservados santuários naturais, onde os animais selvagens possam viver afastados das aldeias, permitindo aos aldeões manter as suas hortas em segurança.
Repito: sou apenas uma cidadã que nasceu e sempre viveu no meio rural, leiga em saberes técnicos e florestais, mas com a experiência de quem cresceu na serra, rodeada de todo o tipo de árvores.

 

Por Dina Duarte, Presidente da Associação de Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande

Nota: Artigo publicado originalmente na edição nº 16 da revista My Planet, em novembro de 2025.