Florestas naturais e florestas de produção: rivais ou aliadas?

20 de Março 2026

A ideia de que as florestas de produção e as florestas naturais representam modelos opostos de relação com a natureza corresponde a uma oposição fictícia. E simplifica uma realidade que é bem mais complexa. Na verdade, diferentes tipos de floresta desempenham funções distintas, mas complementares, e a gestão equilibrada do território depende precisamente dessa complementaridade.

Nem todas as florestas são iguais, mas todas desempenham um papel nos ecossistemas e nas sociedades humanas. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) distingue, por exemplo, entre florestas naturais, que se regeneram de forma espontânea, e florestas plantadas, estabelecidas deliberadamente pelo ser humano.

As florestas naturais incluem desde florestas primárias, praticamente sem intervenção humana, até áreas que se regeneram naturalmente após perturbações. São ecossistemas particularmente importantes para a conservação da biodiversidade, a proteção do solo e da água e o funcionamento de processos ecológicos complexos.

Já as florestas plantadas podem ter diferentes objetivos de gestão. Entre elas encontram-se as florestas de produção, geridas com o objetivo de fornecer madeira, fibra, energia ou outros produtos florestais. A nível global, as florestas plantadas ocupam cerca de 312 milhões de hectares, aproximadamente 8% da área florestal do planeta, e dentro deste grupo, as plantações destinadas diretamente à produção representam cerca de 157 milhões de hectares. Apesar de ocuparem uma fração relativamente pequena da floresta mundial, estas últimas têm um papel estratégico na economia e no abastecimento de matérias-primas renováveis. Ao produzir madeira de forma planeada e profissional, estas áreas ajudam também a reduzir a pressão de exploração sobre as florestas naturais.

O caso português: uma floresta maioritariamente plantada

Portugal ilustra bem esta coexistência entre diferentes tipos de floresta. Segundo dados do Global Forest Resources Assessment 2025, da FAO, estima-se que o país tenha 3,36 milhões de hectares de floresta, o que corresponde a 36,7% do território nacional. Dentro desta área, cerca de 2,49 milhões de hectares correspondem a florestas plantadas, dos quais 780 mil hectares são plantações florestais.

A floresta primária, praticamente intacta, representa uma parcela muito reduzida, inferior a 1% da área florestal nacional. Isto reflete uma longa história de ocupação humana do território, em que a floresta foi sendo moldada por usos agrícolas, silvícolas e industriais ao longo de séculos.

Neste contexto, as florestas de produção assumem um papel importante no fornecimento de madeira e fibra para diversas indústrias, desde a construção até ao papel e ao mobiliário. Espécies como o pinheiro ou o eucalipto fazem parte desta realidade produtiva nacional, contribuindo para uma fileira florestal que tem peso relevante na economia e no emprego rural.

Ao mesmo tempo, as áreas naturais e as zonas protegidas desempenham funções essenciais na conservação da biodiversidade, na proteção do solo e da água e na manutenção de paisagens e habitats únicos.

Mas a conservação da natureza não acontece apenas fora das áreas de produção. Nos sistemas internacionais de certificação florestal, a gestão produtiva tem de integrar zonas dedicadas exclusivamente à conservação (mínimo de 10%, no caso do FSC®). Por exemplo, dos cerca de 110 mil hectares de floresta que a The Navigator Company, mentora do projeto My Planet, tem sob a sua responsabilidade em Portugal continental, 100% certificados, cerca de 12% são dedicados à conservação – incluindo mais de 4600 hectares classificados como habitats da Rede Natura 2000.

Uma questão de equilíbrio

O desafio, hoje, não está em escolher entre floresta natural e floresta de produção, mas em encontrar um equilíbrio entre ambas. A investigação e a experiência de gestão florestal mostram que paisagens diversificadas, com diferentes tipos de floresta e diferentes objetivos de gestão, tendem a ser mais resilientes e a oferecer um conjunto mais amplo de benefícios.

O tema escolhido pelas Nações Unidas para o Dia Internacional das Florestas de 2026, “Florestas e economia”, sublinha precisamente esta dimensão muitas vezes esquecida no debate público. Para além do seu valor ecológico, as florestas sustentam cadeias económicas inteiras, desde a produção de madeira e fibra até a inúmeros produtos industriais e energéticos de base renovável.

Neste contexto, as florestas de produção assumem um papel particularmente relevante. Ao fornecerem matérias-primas renováveis para setores como a construção, o papel ou a bioenergia, contribuem para substituir materiais e fontes energéticas de origem fóssil. Ao mesmo tempo, ajudam a reduzir a pressão de exploração sobre ecossistemas naturais, mostrando que desenvolvimento económico e conservação da natureza não são necessariamente objetivos incompatíveis.

Produzir matérias-primas renováveis, proteger a biodiversidade, armazenar carbono ou garantir espaços de recreio e bem-estar são funções que podem coexistir na paisagem florestal. Quando bem planeadas e geridas, as florestas de produção e as florestas naturais deixam de ser vistas como rivais e passam a ser partes complementares de um mesmo sistema.