Miguel Miranda analisa o verão de 2025, marcado por calor extremo, seca prolongada e incêndios a ocorrer em simultâneo em vastas áreas do território, e explica como a acumulação de fatores de risco está a tornar estes episódios cada vez mais prováveis.

O verão de dois mil e vinte e cinco foi marcado desde cedo pela onda de calor que invadiu a Europa no mais quente mês de junho desde que há registos, ultrapassando por muito pouco o anterior máximo de dois mil e três. As temperaturas sentidas estiveram em muitos locais acima dos 30 °C e no Alentejo e, mais exatamente, na estação meteorológica de Mora, atingiu-se um novo máximo histórico, com quase 47 °C. O mês de julho no continente foi seco, com um tempo típico de verão dominado pela circulação anticiclónica no Atlântico e céu limpo. Ficou, contudo, marcado por dois episódios de tempo quente na primeira e na última semana, terminando com quase setenta por cento do território em seca meteorológica.
No fim do mês de julho já se compreendia que o mês de agosto marcaria um novo agravamento. A comunicação social divulgava amplamente a chegada de mais um período muito quente, com valores máximos próximos dos 45 °C, e noites tropicais. Apesar de não estarem previstos máximos históricos, a previsão apontava para valores superiores a 40 °C numa região muito extensa, do centro e norte. Durante mais de uma semana o tempo muito quente ocupou todo o período de previsão e parecia interminável. No final, o IPMA atribuiu a este episódio extremo a duração de 17 dias, classificando-o como o mais longo de sempre.
Ao fim de dois anos marcados por invernos chuvosos com períodos de precipitação forte, dando por finda uma situação de seca muito longa, o coberto vegetal encontrava-se particularmente desenvolvido. Depois de dois meses quentes e secos, verificava-se que fora das zonas onde existe gestão real e continuada da floresta, estavam reunidos todos os elementos necessários para um risco muito elevado de incêndio florestal. Não era difícil a previsão de que o mês de agosto de dois mil e vinte cinco seria marcado por um sopro destruidor.
Os índices de risco meteorológico de incêndio florestal mostram o valor máximo, durante semanas e de uma forma consistente, num território muito extenso. As estratégias de combate que muito têm evoluído, devido ao esforço de todos os atores do sistema de proteção civil, mas em particular da AGIF, viram-se confrontadas com uma situação em que a probabilidade de ser desencadeado, ou ser desenvolvido, um incêndio de grandes dimensões, era elevada em quase todas as áreas do continente. Sem tréguas. Sem interrupções ou descanso. Incêndios em todo o lado e ao mesmo tempo.
No fim do mês de julho, as previsões de curto prazo e de período alargado para Portugal, que cobrem bem mais de dez dias, apontaram com antecipação o que se deveria esperar. A informação circulou abundantemente e foi analisada na comunicação social, e seguramente nos círculos da proteção civil.
Ao longo dos dias, e mesmo agora no princípio do outono, as televisões estão em todo o lado, muitas vezes antes dos organismos de proteção civil. E mostram que algo falta às populações, que se sentem abandonadas a lutar inutilmente contra incêndios que se aproximam, esperando por meios de combate que não podem estar em todo o lado em que são precisos ao mesmo tempo. A quimera de um sistema capaz de matar no início a totalidade dos incêndios florestais mostrou que era isso mesmo: uma quimera.
Nada disto se pode considerar uma surpresa. As temperaturas de superfície continuam a subir, lenta mas inexoravelmente, em todo o planeta. À nossa latitude, e em toda a bacia do Mediterrâneo, aumenta a aridez pela ação combinada da evapotranspiração acrescida e pela grande variabilidade da precipitação.
Novos períodos de “tempo excecionalmente quente”, longos e extensos, virão no futuro. Sempre incompatíveis com a paisagem de um país atlântico que também somos. Estamos a entrar numa era em que as áreas abandonadas, ou com níveis muito baixos de gestão, são essencialmente incêndios por acontecer. Uma era em que os incêndios de verão, mesmo combatidos por uma quantidade generosa de meios em terra e no ar, atingem tal dimensão que destroem à sua frente campos agrícolas, áreas periurbanas e industriais, ou florestas seculares. Em que as populações não podem contar sempre com a chegada a tempo dos meios que são supostos defenderem-nas.
Ou gerimos mesmo o território durante todo o ano, ou nada está realmente a salvo.
Por Miguel Miranda, Diretor Executivo do Air Centre e ex-Presidente do IPMA
Nota: Este artigo foi publicado originalmente na edição nº 16 da revista My Planet, em novembro de 2025.