A língua materna é o primeiro território que habitamos. Aprende-se antes da escola, antes dos livros, antes das regras. É um património vivo, moldado pelas pessoas, pelos lugares e pelo tempo. No Dia Internacional da Língua Materna, refletimos sobre a língua como memória coletiva e espaço de pertença.
A primeira língua que aprendemos não vem dos livros nem da escola. Vem das canções de embalar, da cozinha da avó, da rua e dos amigos, das histórias repetidas vezes sem conta. É a língua em que começamos a nomear o mundo, a pedir ajuda, a contar segredos, a explicar o que sentimos.
Essa é a nossa língua materna. A língua das nossas primeiras palavras e das primeiras perguntas, aquela que nos permite distinguir o que é perto do que é longe, e o que é nosso do que é dos outros. Antes de ser uma ferramenta, é um lugar – um espaço onde crescemos.
No Dia Internacional da Língua Materna, assinalado a 21 de fevereiro por iniciativa da UNESCO, o objetivo não é apenas celebrar idiomas. É lembrar que cada língua transporta uma forma única de ver o mundo, de organizar o pensamento, de transmitir conhecimento e de criar laços entre pessoas.
Português, uma língua feita de muitas vozes
Costumamos falar de “português” como se fosse uma realidade única e homogénea. Mas basta ouvir com atenção para perceber que não é assim.
O português falado no Minho não é igual ao do Alentejo. O da Madeira não é igual ao de Lisboa. As palavras mudam, as entoações mudam, as expressões mudam. Em cada região, em cada comunidade, a língua adapta-se ao território, às histórias locais e às formas de viver.
Há palavras que só fazem sentido num determinado sítio. Expressões que só existem numa aldeia, num bairro, numa família. Modos de dizer que não aparecem nos dicionários, mas que guardam décadas de experiência e de memória partilhada. Essa diversidade interna é um sinal de vitalidade, pois uma língua em uso nunca é estática.
Ao mesmo tempo que a língua vive, cresce e se multiplica, há perdas que acontecem quase sem darmos por elas. Segundo a UNESCO, pelo menos 40 por cento das cerca de sete mil línguas faladas no mundo estão em risco de desaparecer, muitas delas com comunidades muito reduzidas de falantes. Nestes casos, quando as pessoas morrem, a língua morre com elas.
Com cada língua que desaparece, perde-se muito mais do que um conjunto de sons ou regras gramaticais. Perdem-se histórias, canções, provérbios, formas de transmitir valores, maneiras específicas de observar a natureza e de interpretar o tempo, as estações, os ciclos da vida.
Mesmo dentro das línguas dominantes, como é o caso do português, há palavras ligadas, por exemplo, ao mundo rural, às profissões tradicionais, às práticas agrícolas ou à relação com o território que estão a cair em desuso. Expressões para tipos de vento, de solo, de plantas, de técnicas de cultivo, de instrumentos, de gestos. Palavras que serviam para observar, decidir e agir, que, quando deixam de ser usadas, deixam também de ser pensadas.
Entre mudança e continuidade
Hoje, grande parte da nossa comunicação acontece em mensagens curtas, áudios rápidos, emojis, abreviaturas. Falamos mais do que nunca, mas com menos tempo para escolher as palavras. O digital não é inimigo da língua. Pelo contrário, permite que circule, que se reinvente, que chegue mais longe. Mas também favorece a simplificação, a repetição e a uniformização.
Expressões desaparecem porque “dão trabalho”. Frases encurtam-se porque “não há tempo”. Palavras são substituídas por imagens. Nada disto é necessariamente negativo. As línguas sempre mudaram, o desafio está em não confundir rapidez com empobrecimento.
Cuidar da língua não é tentar fixá-la num passado idealizado, rejeitar mudanças e vigiar cada anglicismo. As línguas sobrevivem exatamente porque se transformam. Cuidar da língua é, isso sim, usá-la com atenção. É contar histórias, conversar sem pressa, manter vivas as palavras que explicam quem somos e de onde vimos. É valorizar sotaques, expressões e variações, em vez de as corrigir.
No fundo, cuidar da língua é, sobretudo, transmiti-la. Às crianças, a quem cresce nela e a quem a encontra pela primeira vez. É mostrar que é um espaço de pertença, não uma barreira.
A língua materna é o primeiro espaço que habitamos. Antes da casa, da escola ou do trabalho, é nela que aprendemos a estar no mundo. É por isso que merece ser cuidada com o mesmo respeito com que cuidamos dos lugares importantes, das paisagens, dos ecossistemas. Porque também ela é um património vivo. Frágil, em constante mudança, essencial para o futuro.
Proteger a língua é proteger as pessoas que a falam. E as histórias que ainda estão por contar.