Menos aves comuns: mais um sinal de alerta

31 de Agosto 2026

O Censo das Aves Comuns 2004-2025 mostra que algumas espécies podem deixar de ser assim tão comuns. As populações da andorinha-das-chaminés, do cuco e da rola-brava, por exemplo, estão a sofrer declínios preocupantes.

 

As aves comuns fazem parte da paisagem, seja na cidade, no campo ou na floresta. Habituámo-nos a vê-las e a ouvi-las enquanto “passarinham” por aí, pousadas nas árvores ou nos beirais das casas. As suas populações estão, no entanto, a diminuir, quase sem darmos conta.

O Censo de Aves Comuns 2004-2025, apresentado recentemente pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) revela isso mesmo. O relatório reúne mais de duas décadas de dados – recolhidos em Portugal Continental e nas ilhas –, e mostra que é nos meios agrícolas que a diminuição do número de aves comuns é mais acentuada. Espécies como a laverca, a águia-caçadeira, a andorinha-das-chaminés, o cuco, o picanço-barreteiro, a rola-brava e a felosa-poliglota apresentam “tendências preocupantes”, considera a SPEA. Já as aves que habitam sobretudo nos meios florestais e urbanos mostram uma evolução favorável. Mas fazendo as contas totais, o indicador geral das aves comuns, baseado em 64 espécies, apresenta uma tendência negativa.

O declínio destas aves não pode ser visto apenas como uma perda isolada. A sua presença está ligada às condições dos habitats e, por isso, as alterações negativas nas suas populações podem ser um sinal de mudanças mais amplas no ambiente. Para além de tornarem os habitats naturais mais ricos e diversos, e dos papéis que assumem no seu equilíbrio, estas aves podem também funcionar como verdadeiros indicadores do estado dos ecossistemas.

Mais do que (apenas) contar aves

O Censo de Aves Comuns é um programa de monitorização de longo prazo que acompanha as populações de aves nidificantes e os habitats onde vivem. Os dados recolhidos contribuem também para a avaliação das aves comuns à escala europeia. Todos os anos, sobretudo durante a primavera, observadores voluntários visitam áreas selecionadas e registam todas as aves avistadas, ou ouvidas em determinados pontos de escuta.

O programa começou em Portugal continental e na Madeira em 2004, e nos Açores em 2007. A sua importância vai muito além da contagem de aves. Os resultados permitem construir indicadores sobre a evolução dos principais habitats e apoiar decisões relacionadas com a conservação da natureza e o ordenamento do território.

Segundo Hany Alonso, coordenador nacional do Censo de Aves Comuns, “os resultados deixam um alerta claro: a biodiversidade dos meios agrícolas continua sob forte pressão. Manter séries de dados de longo prazo e aumentar a cobertura do censo é essencial para detetar estas mudanças e orientar medidas de conservação eficazes”.

Proteger a biodiversidade não passa apenas por salvar as espécies mais raras. Passa também por garantir que as espécies que ainda encontramos todos os dias continuem a fazer parte das nossas paisagens no futuro.