Quando usamos uma folha ou um lenço de papel, ou uma embalagem feita a partir de fibras de eucalipto, dificilmente pensamos na investigação científica que está por detrás desses produtos. Há 30 anos que o RAIZ trabalha precisamente nesse território: transformar conhecimento em soluções para a floresta, para a indústria e para uma economia menos dependente dos recursos fósseis.
O que é o RAIZ?
O RAIZ – Instituto de Investigação da Floresta e Papel é uma organização dedicada a transformar conhecimento científico em soluções para a floresta, para a indústria e para novos produtos de base biológica. O seu trabalho abrange toda a cadeia de valor do eucalipto: da genética das árvores à composição química da fibra, dos processos de fabrico aos bioprodutos capazes de substituir os que hoje têm origem fóssil.
Fundado em 1996 e sediado em Eixo, Aveiro, conta com 92 colaboradores, dos quais 27 doutorados. É reconhecido pelo Estado português como Centro de Tecnologia e Inovação (CTI), acreditado pela rede europeia EBN como Business Innovation Centre (BIC) e membro da rede de Clubes UNESCO para a Floresta e a Bioeconomia Florestal.
A The Navigator Company, mentora do projeto My Planet, é o seu principal acionista (97%), juntamente com as Universidades de Aveiro, Coimbra e Lisboa (ISA), que participam também como parceiros científicos permanentes.
Porque foi criado?
Em meados da década de 1990, Portugal já possuía bastante conhecimento sobre o eucalipto globulus, acumulado ao longo de décadas de investigação e desenvolvimento industrial. No entanto, esse conhecimento estava disperso por laboratórios das empresas, ou em polos académicos, alguns dos quais com escassa ligação direta à produção.
O RAIZ nasceu para reunir essa massa crítica, assegurar continuidade à investigação e acelerar a transformação do conhecimento científico em soluções aplicadas para a floresta e para a indústria.
Trinta anos depois, continua a desempenhar esse papel de ponte entre a ciência e a aplicação prática.
O que faz, na prática?
O trabalho do RAIZ organiza-se em dois grandes eixos: floresta e indústria.
Na floresta, desenvolve novos materiais genéticos, estuda soluções biológicas para controlo de pragas e doenças, define práticas silvícolas de referência e cria ferramentas digitais e serviços técnicos especializados para partilha de conhecimento com os produtores florestais.
Na indústria, investiga formas de otimizar processos, melhorar produtos existentes e encontrar novas utilizações para a fibra de eucalipto.
O instituto dispõe de instalações-piloto para escalonamento de soluções, um elo essencial entre o laboratório e a fábrica, e presta serviços de laboratório e consultoria técnica a entidades externas.
Como é que o conhecimento produzido no laboratório se transforma em impacto?
A proximidade entre ciência e aplicação prática é uma das características que melhor definem o RAIZ. O instituto faz mais do que investigar para publicar: investiga para transformar.
Essa passagem da investigação à resolução de problemas concretos é facilitada pela ligação direta à The Navigator Company. O acesso simultâneo à floresta, às unidades industriais e ao mercado permite testar ideias, validar soluções e acelerar a sua implementação.
Um exemplo é a unidade de celulose moldada inaugurada em Aveiro em 2024, a primeira do mundo a produzir peças para embalagem a partir de 100% de pasta de Eucalyptus globulus. O conceito foi desenvolvido no RAIZ, testado nas instalações-piloto e escalado para uma nova linha de negócio da Navigator, que vem, assim, abrir mais uma frente na substituição dos plásticos de utilização única e alumínio, sobretudo na indústria alimentar.
O mesmo aconteceu com tecnologias exclusivas utilizadas nos papéis tissue da Navigator, desenvolvidas pelo RAIZ em diálogo permanente com equipas comerciais e clientes. E também projetos como o Inpactus, o maior investimento em Portugal num projeto de I&D na área da bioeconomia florestal.
Estes exemplos mostram que o impacto da investigação não se mede apenas pelas descobertas que produz, mas também pela sua capacidade de chegar à floresta, às fábricas e ao mercado.
O que acontece ao conhecimento que produz?
A proteção da propriedade intelectual é uma dimensão estratégica do RAIZ. O instituto conta com 53 patentes registadas e integra o top 10 de entidades portuguesas com maior número de pedidos de patentes internacionais.
Mas valorizar o conhecimento não se limita às patentes. O RAIZ gere ativamente um portefólio de inovação, acompanhando o desenvolvimento das tecnologias que cria, avaliando o seu potencial de aplicação e apoiando a sua transferência para a indústria e para novos modelos de negócio.
Ao mesmo tempo, uma parte significativa do conhecimento produzido é partilhada de forma aberta, através de publicações científicas, programas de doutoramento desenvolvidos com universidades, plataformas digitais de informação florestal e ações de formação dirigidas a produtores florestais, técnicos e outros profissionais do setor. Esse esforço estende-se também à promoção da literacia florestal, através de iniciativas como o Floresta do Saber, um projeto educativo do RAIZ que aproxima crianças e jovens da ciência e da floresta.
Desta forma, o conhecimento gerado pelo instituto pode seguir diferentes caminhos: ser protegido quando existe potencial de inovação e diferenciação, ou ser disseminado quando a sua partilha contribui para o desenvolvimento da floresta e da sociedade.
Que desafios pode ajudar a resolver no futuro?
Grande parte dos materiais e produtos que utilizamos diariamente continua a depender de recursos fósseis. A transição para uma economia mais sustentável exige alternativas renováveis, circulares e com menor pegada de carbono.
É para ajudar a construir estas alternativas que o RAIZ trabalha há três décadas. O conhecimento acumulado sobre o Eucalyptus globulus permitiu compreender melhor as propriedades desta espécie e identificar novas formas de valorizar a madeira e os seus componentes.
Esse conhecimento está hoje a abrir caminho a uma nova geração de produtos: as embalagens que substituem o plástico de uso único, e que já são uma realidade, mas também fibras têxteis, biocompósitos para a indústria automóvel e de injeção, biomateriais que substituem pele animal ou couro sintético, compostos bioativos para as áreas da saúde, cosmética e nutracêutica, biocombustíveis e combustíveis sintéticos a partir dos sobrantes da exploração florestal e de subprodutos do processo industrial, bem como fertilizantes e corretivos derivados de resíduos do processo.
Trata-se de aproveitar melhor os recursos de base florestal, valorizar mais componentes da árvore e criar soluções compatíveis com uma economia mais circular.
Portugal reúne condições particularmente favoráveis para participar nesta transformação, graças à combinação de recursos florestais, capacidade industrial e conhecimento científico. O contributo do RAIZ será ajudar a garantir que o conhecimento continua a ser uma das principais matérias-primas desta nova economia de base biológica.