Reconstruir territórios, valorizar recursos e evitar os erros do passado

27 de Agosto 2026

Na opinião de Gonçalo Almeida Simões, o futuro da floresta portuguesa exige visão, ação e inovação. A bioindústria florestal está preparada para liderar esse caminho, no sentido de uma floresta que seja motor de desenvolvimento para todo o país.

 

A gestão sustentável das florestas é hoje um imperativo estratégico para Portugal, que continua a perder área florestal — com uma contabilização ainda não definitiva de 280 000 ha só em 2025. Isto representa enormes perdas para o país em termos de vidas, ativo biológico, capacidade de sequestro de carbono e matéria-prima, mas também emissões na ordem de 1,7 megatoneladas de CO2. Neste contexto, as metas ambientais para Portugal, resultantes dos acordos de Paris, são praticamente uma miragem, e para as quais a instalação massiva de painéis solares que promovam a deflorestação não é, certamente, a solução.

A produção de madeira ou outros produtos lenhosos de forma sustentável é, seguramente, uma das respostas para o flagelo dos fogos rurais, pois havendo interesse económico haverá cada vez mais proprietários florestais dispostos a gerir as suas propriedades, diminuindo-se o risco de abandono — num contexto em que 97% da área florestal é privada.

No entanto, para que a floresta nacional alcance todo o seu potencial, é preciso fazer melhor, recuperando e aumentando a área florestal que tem vindo a ser destruída ano após ano. Isso implica a seleção do melhor material genético, práticas silvícolas avançadas e intervenções de mitigação de risco, desde a prevenção e combate a incêndios até ao controlo de pragas e doenças. A bioindústria representada pela Biond tem assegurado o apoio e a partilha de conhecimento em todas estas frentes, por via dos seus Programas Operacionais.

Infelizmente, a realidade das últimas décadas revela um paradoxo preocupante: a produtividade da floresta nacional, particularmente do eucalipto, tem diminuído, apesar do conhecimento científico e tecnológico disponível, que permitiria ganhos expressivos. Essa degradação tem duas explicações. Em primeiro lugar, as mudanças profundas na sociedade rural, que abandonou os usos tradicionais da floresta; em segundo, uma perceção preocupante, ainda que minoritária e infundada, de que a gestão económica da floresta acarreta riscos. Chegámos, assim, a uma situação em que o imobilismo nos levou à área ardida que se vai acumulando nos registos estatísticos e que materializa no terreno mais abandono.

O resultado é um território interior cada vez mais despovoado e fragilizado, num país que afirma querer adotar políticas de coesão territorial. Mas a coesão territorial não é algo que se alcance por decreto, mas sim pela dinamização da economia local, nomeadamente a florestal.

As plantações florestais constituem, desde logo, uma peça-chave dessa economia local, contribuindo para alavancar um país com potencial de liderança na bioeconomia europeia — mas que se debate com um enorme problema de falta de matéria—prima.  Portugal reúne condições únicas para liderar na produção de eucalipto, desde a tecnologia e genética, passando pela transferência de conhecimento, permitindo gerar bioprodutos inovadores de alto valor acrescentado. Mas este potencial esbarra em constrangimentos sérios, como a escassez de matéria-prima, que compromete o setor e obriga à importação de madeira, o que acarreta custos elevados e impede a expansão de clusters de biomateriais, biocombustíveis e bioquímicos, totalmente viáveis com base na floresta plantada nacional.

O abandono das parcelas florestais e a revisão do RJAAR após os incêndios de 2017 agravaram este cenário, desconsiderando causas estruturais como o êxodo rural, o envelhecimento populacional, a falta de rendibilidade e as alterações climáticas. Hoje, Portugal enfrenta um território fragmentado, com apenas 46% das áreas florestais cadastradas e mais de 20% sem dono conhecido. Ordenar o território e estimular a gestão são medidas urgentes. Para tal, é preciso criar escalas de produção, fomentar o associativismo e os condomínios florestais, aumentar a produtividade e fixar a população no meio rural.

Está provado, empiricamente, que a gestão altera radicalmente a realidade no terreno. Os Programas Operacionais da Biond, como o “Limpa e Aduba”, mostram isso mesmo. Entre 2019 e 2024, nas áreas abrangidas por estes programas, registou-se uma redução de fogos rurais em 3,3 vezes, concluindo-se, sem margem para dúvidas, que a floresta bem gerida é mais produtiva e mais resiliente ao fogo.

Portugal dispõe de um cluster industrial único, com capacidade de gerar produtos diversificados — da pasta, papel e cartão aos biocombustíveis e biomateriais —, e de competir globalmente, substituindo produtos de origem fóssil. Através da I&D, do conhecimento acumulado e da modernização tecnológica, é possível aumentar a produtividade das plantações em mais de 50% em algumas parcelas, promovendo uma economia circular de baixo carbono.

O futuro da floresta portuguesa exige visão, ação e inovação. Ordenar o território, valorizar recursos, estimular a produtividade e partilhar conhecimento são passos fundamentais para reconstruir o que o fogo e o abandono ameaçaram. A bioindústria florestal está preparada para liderar este caminho — não apenas para produzir, mas para criar valor duradouro: ambiental, económico e social. É hora de evitar os erros do passado e construir uma floresta resiliente, produtiva e sustentável — uma floresta que seja motor de desenvolvimento para todo o país.

 

Por Gonçalo Almeida Simões, ex-Diretor-geral da Biond

 

Nota: Artigo publicado originalmente na edição nº 16 da revista My Planet, em novembro de 2025.