80 anos de incêndios: o que o país tem de mudar

7 de Julho 2026

O que explica os grandes incêndios em Portugal? Uma análise de mais de 80 anos de dados conclui que o problema não está numa única espécie florestal nem pode ser explicado apenas pelas alterações climáticas. A resposta está, sobretudo, na forma como o território é gerido e no combustível que se acumula ao longo de décadas.

“Mais de 80 anos de dados mostram que os grandes incêndios em Portugal são um problema estrutural, não uma fatalidade de verão”. Esta é uma das principais conclusões do relatório Incêndios florestais em Portugal: mais de 80 anos mostram que o país tem de mudar, promovido pela Greenpeace Portugal e desenvolvido pelo Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais (CEIF) da ADAI/Universidade de Coimbra (UC).

Apresentado no final de junho e desenvolvido sob a coordenação de Domingos Xavier Viegas, professor emérito da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC, o estudo faz uma vasta análise dos dados disponíveis, para traçar um diagnóstico sobre a evolução dos incêndios florestais em Portugal e identificar medidas capazes de reduzir o risco no futuro.

Desmontar equívocos

Basta olhar para a frequência com que determinadas palavras surgem no relatório para perceber uma das suas mensagens centrais. Enquanto “eucalipto” é referido apenas 10 vezes, “gestão” aparece cerca de 100. A diferença ilustra um dos equívocos que mais frequentemente regressa ao debate público: a ideia de que uma única espécie florestal explica, por si só, a dimensão dos grandes incêndios.

Embora reconheça que “as plantações extensivas de eucalipto podem contribuir para o agravamento dos incêndios, especialmente quando mal geridas ou integradas em paisagens com elevada concentração de combustível”, o relatório sublinha que “os grandes incêndios também ocorrem em matagais, pinhais e outras áreas florestais sem gestão adequada”. A conclusão é clara: “A continuidade do combustível e o abandono das terras parecem ser fatores mais determinantes do que a presença de uma única espécie”.

O ritmo das alterações climáticas e a urgência de investir na gestão do risco

Os autores alertam que o combate aos incêndios, apesar de indispensável, não pode continuar a ser a principal resposta do país. “Sem prevenção estrutural, o combate continuará a chegar tarde demais”, defendem, lembrando que “o comportamento extremo dos incêndios florestais põe cada vez mais em causa a ideia de que a maioria dos incêndios pode ser sempre combatida de forma segura e eficaz, mesmo em condições adversas”.

O clima agrava o problema, mas não explica, por si só, a dimensão dos grandes incêndios. Segundo o relatório, “o comportamento severo dos incêndios resulta normalmente da interação entre condições atmosféricas adversas e paisagens altamente inflamáveis, moldadas por décadas de abandono e de acumulação de combustível”.

Os investigadores alertam ainda que o ritmo das alterações climáticas “poderá exceder a capacidade de adaptação da paisagem florestal e de preparação dos cidadãos para os desafios futuros”, a menos que “a gestão do risco de incêndios florestais passe a ser considerada uma prioridade nacional mais elevada”.

Medidas para um futuro mais seguro

A gestão do território surge como principal resposta, num conjunto de medidas que a Greenpeace lança através do relatório agora divulgado.

Entre elas está o compromisso do Estado em gerir anualmente pelo menos 1% da área florestal nacional, interrompendo a continuidade do combustível e atuando como um “gestor exemplar” para outros detentores particulares de terrenos.

Outra prioridade passa pela conclusão do Sistema de Informação Cadastral Simplificado, permitindo identificar os limites das propriedades e envolver mais diretamente os proprietários privados na redução do risco.

O relatório defende ainda que a gestão rural deve tornar-se uma escolha economicamente viável. Para isso, propõe mecanismos de compensação para os proprietários pelos serviços dos ecossistemas assegurados pelos seus terrenos, contribuindo para contrariar o abandono do território.

Por fim, a Greenpeace sugere que Portugal e Espanha estabeleçam um pacto permanente para coordenar a gestão dos corredores transfronteiriços de combustível, harmonizar protocolos operacionais e atuar de forma coordenada junto da União Europeia.

Os grandes incêndios não são uma “fatalidade de verão”, nem resultam da presença de uma espécie específica. São consequência de fatores estruturais e das escolhas que o país faz, ou deixa por fazer, na gestão do território. Mais de 80 anos de evidência apontam na mesma direção: reduzir o risco antes da ignição continua a ser a forma mais eficaz de proteger pessoas, ecossistemas e património.

“Sem prevenção estrutural, o combate continuará a chegar tarde demais”, alerta a Greenpeace.