O pós-incêndio deve ser encarado como uma oportunidade de reconstrução resiliente

10 de Setembro 2026

António Loureiro reflete sobre os desafios que se colocam após um grande incêndio. A atenção sobre os territórios afetados tende a diminuir, mas há medidas que podem contribuir para mitigar as consequências do fogo e para tornar a floresta mais resiliente.

Qual a prioridade absoluta após um grande incêndio?
A prioridade absoluta após um grande incêndio é garantir a segurança das populações e das equipas operacionais no terreno. Simultaneamente, deve ser iniciada uma avaliação rápida e coordenada dos danos, bem como a estabilização das áreas afetadas para prevenir riscos secundários, como derrocadas ou contaminação dos recursos hídricos. É fundamental assegurar apoio imediato às comunidades — emocional, social e económico — criando condições para uma recuperação eficaz e sustentável.

O que costuma falhar no pós-incêndio?
Uma das principais falhas no pós-incêndio é a descontinuidade das ações e a fraca articulação entre entidades. Após a fase de emergência, a atenção tende a diminuir, levando ao abandono das zonas afetadas e à ausência de medidas estruturais de recuperação. A falta de financiamento estável, a escassa integração das comunidades locais nas decisões e a carência de mecanismos de avaliação contínua comprometem a eficácia das respostas, aumentando a vulnerabilidade a futuros eventos.

Que recomendações deixa para os decisores?
Recomenda-se que o pós-incêndio seja encarado como uma oportunidade de reconstrução resiliente:

  • Implementar mecanismos de resposta coordenada e de longo prazo, envolvendo proteção civil, autarquias, setor ambiental e sociedade civil;
  • Garantir financiamento contínuo para a reabilitação ecológica e socioeconómica;
    Promover a gestão da paisagem com diversificação de usos do solo e valorização das florestas multifuncionais;
  • Valorizar o conhecimento local, capacitando e envolvendo as populações nas soluções;
  • Assegurar transparência e avaliação sistemática dos processos de recuperação.

Em Albergaria-a-Velha, algumas destas recomendações já começaram a ser postas em prática. Após setembro de 2024, a autarquia implementou diversas medidas de mitigação, com destaque para:

  • Cooperação com o Exército Português na abertura de caminhos florestais estratégicos (Valmaior–Sra. do Socorro, Fontão–Marridas, Frossos–Maridas) e limpeza e reposição de material em 8 km de caminhos.
  • Criação de novas zonas “Aldeia Segura, Pessoas Seguras” (Gavião e Porto Riba), e manutenção e sensibilização nas existentes (Carvalhal, Fontão, Vilarinho de São Roque, Vila Nova de Fusos).
  • Implementação de Unidades Locais de Proteção Civil (ULPC) nas freguesias; entrega de kits florestais e ações de sensibilização.
  • Reforço do Serviço Municipal de Proteção Civil, incluindo aquisição de equipamentos, sistema de videovigilância e voluntariado jovem para natureza e florestas.
  • Construção de caminhos florestais resilientes ao inverno, através do Projeto Solo Cimento.
  • Projetos Florestais de reabilitação ecológica, controlo de invasoras, recuperação de infraestruturas e linhas de água.
  • Plantações de mais de 42.000 árvores autóctones
  • Plano “Indústrias Seguras, Comunidade Segura”, com levantamento e planeamento para mitigação de riscos na zona industrial e criação da figura do Gestor de Emergência.
  • Início da criação de quatro condomínios de Aldeia.

 

Por António Loureiro, Presidente da Câmara Municipal de Albergaria-a-Velha (2013-2025)

Nota: Artigo publicado originalmente na edição nº 16 da revista My Planet, em novembro de 2025.