As abelhas produzem mel. Mas também produzem metáforas, símbolos e algumas das imagens mais persistentes da cultura popular.
Há animais que aparecem na cultura popular como simples pano de fundo. E há outros que parecem carregar sempre um significado maior. As abelhas pertencem claramente ao segundo grupo. Surgem em desenhos animados, filmes de terror, romances sobre guerra ou ditadura, metáforas políticas, capas de álbuns e até no imaginário de estrelas pop. Raramente aparecem apenas como insetos. Quase sempre representam alguma coisa sobre nós próprios.
Talvez porque poucos animais combinem tantas ideias contraditórias ao mesmo tempo. As abelhas são organizadas, mas imprevisíveis. Parecem frágeis individualmente, mas quase invencíveis em grupo. Produzem mel, associado à doçura e abundância, mas defendem-se com ferroadas. Vivem numa estrutura altamente coordenada e coletiva, mas sem deixarem de parecer misteriosas. Não admira, por isso, que tenham ocupado durante séculos um lugar especial no imaginário humano.
Muito antes do cinema ou da televisão, as abelhas já carregavam um forte simbolismo cultural. Associadas à fertilidade, ao poder e à ordem coletiva, aparecem em mitos, religiões e símbolos políticos de diferentes épocas. No Egito Antigo, acreditava-se que tinham nascido das lágrimas do deus Rá. Na Grécia Antiga, estavam ligadas à sabedoria, à profecia e até ao mundo divino. Séculos mais tarde, Napoleão escolheu-as como símbolo imperial, vendo nelas uma imagem de disciplina, trabalho e lealdade ao coletivo. Ao longo da História, foram assumindo significados diferentes, mas quase sempre ligados à forma como os seres humanos olham para organização, poder e comunidade.
A colmeia perfeita… e assustadora
Na cultura popular contemporânea, as abelhas seguem, geralmente, dois caminhos muito diferentes. Num deles, aparecem como criaturas harmoniosas e exemplares. É o caso da “Abelha Maia” ou de “A História de Uma Abelha” (Bee Movie), produções que transformam a colmeia num lugar cooperativo, organizado e até divertido.
Mas existe outro lado bem menos confortável. O mesmo comportamento coletivo que nos fascina também pode tornar-se ameaçador. No filme “O Enxame” (The Swarm), ataques de abelhas transformam cidades inteiras em cenários de caos. Em “Candyman”, são também as abelhas que ajudam a construir uma imagem de trauma e inquietação permanente. Já na série “Ficheiros Secretos” (The X-Files), surgem associadas a conspirações, vírus e experiências obscuras.
O medo talvez venha precisamente daquilo que mais nos fascina nelas: o enxame. Uma única abelha raramente assusta alguém. Mas milhares a moverem-se como se fossem um único organismo já pertencem a outra categoria psicológica. A ideia de perder o controlo perante uma força coletiva, coordenada e difícil de travar atravessa muitos destes filmes e aproxima as abelhas de outros receios modernos, como pandemias, manipulação coletiva ou tecnologias que funcionam em rede.
A colmeia representa, simultaneamente, um sonho de organização perfeita e um possível pesadelo de ausência de individualidade.
Muito mais do que mel
As abelhas também aparecem frequentemente na literatura e no cinema como metáforas sociais e políticas. Em “Uma Abelha na Chuva”, de Carlos de Oliveira, um dos romances mais marcantes do neorrealismo português, a imagem da abelha incapaz de voar sob a chuva ajuda a construir uma atmosfera de opressão, estagnação e crise silenciosa. Já em “The Spirit of the Beehive” (El Espíritu de la Colmena), do realizador espanhol Víctor Erice, a colmeia funciona como símbolo de uma sociedade rígida e emocionalmente reprimida durante o franquismo.
Noutros casos, as abelhas representam resistência e sobrevivência. O filme “Hive” (Zgjoi), da realizadora kosovar Blerta Basholli, acompanha um grupo de mulheres viúvas da Guerra do Kosovo que encontra na apicultura uma forma de independência económica e reconstrução coletiva. E em “Abelhas cinzentas” (Grey Bees), do escritor ucraniano Andrey Kurkov, um apicultor tenta preservar as suas colmeias no meio da guerra no leste da Ucrânia, como se cuidar das abelhas fosse também uma forma de proteger alguma normalidade num território destruído pelo conflito.
Mesmo fora da ficção, o simbolismo das abelhas continua presente. A cantora Beyoncé ajudou a popularizar a imagem da “queen bee” – expressão usada para descrever figuras femininas dominantes ou altamente influentes –, enquanto os seus fãs se identificam coletivamente como “BeyHive”, numa referência direta à colmeia. Ao mesmo tempo, marcas, movimentos ecológicos e campanhas ambientais recorrem frequentemente às abelhas como símbolo de equilíbrio, cooperação e interdependência entre espécies.
De mitos antigos a filmes contemporâneos, as abelhas foram assumindo significados muito diferentes: poder, ameaça, disciplina, resistência ou espírito coletivo. Mas a sua presença constante na cultura popular sugere uma coisa curiosa: talvez, ao observar as abelhas, os seres humanos tenham estado sempre a tentar compreender-se a si próprios.