Porque manda a meteorologia nos incêndios em Portugal?

21 de Maio 2026

O climatologista Carlos da Camara explica por que razão devemos encarar o papel determinante das condições meteorológicas no desenvolvimento dos grandes incêndios numa perspetiva integrada, que tenha igualmente em conta o ordenamento do território e as atividades humanas.

Os grandes incêndios em Portugal são sempre precedidos de avisos alertando para condições meteorológicas extremas. A regra dos “três trintas”, que estabelece como condições propícias à ocorrência de grandes incêndios ter-se valores de temperatura do ar superiores a 30 graus celsius, de humidade atmosférica inferiores a 30 por cento e de velocidade do vento superiores a 30 quilómetros por hora, ou a regra dos “quatro trintas”, em que se acrescenta ter-se mais de trinta dias sem chuva, são formas práticas de quantificação dos efeitos dos quatro parâmetros meteorológicos no comportamento do fogo. Os indicadores de perigo de incêndio, tais como os que constituem o Sistema Canadiano que se utiliza operacionalmente em Portugal, têm também por base a temperatura e humidade atmosférica à superfície, a velocidade do vento a 10 metros e a precipitação acumulada nas últimas 24 horas. E os modelos de previsão sazonal da severidade da época de incêndios em Portugal, que proporcionam informação útil a partir do início de junho, igualmente assentam no cálculo dos efeitos cumulativos das condições meteorológicas na abundância de biomassa e no grau de secura dos combustíveis finos.

O sucesso dos modelos de previsão do perigo de incêndio não devem escamotear o facto de os estados do tempo que favorecem o desenvolvimento e a propagação do fogo serem uma condição necessária à ocorrência de um grande evento, mas não uma condição suficiente. Pois se é a uma meteorologia apropriada que se deve o suprimento de oxigénio para que a combustão tenha lugar, são igualmente necessários combustíveis finos e biomassa em quantidade suficiente que a alimentem e uma ignição que garanta o início da reação.
Ora, se a influência da meteorologia é, em geral, interpretada corretamente pelo cidadão comum, já o mesmo se não pode dizer acerca dos papéis do coberto vegetal e das ignições, cuja análise se baseia, muitas vezes, em mitos urbanos ou em teorias conspirativas não sustentadas pelos factos observados. Refira-se a este respeito a aceitação, mais ou menos generalizada, de que a severidade dos incêndios se deve à combustibilidade do eucalipto e do pinheiro-bravo, aliada a ações criminosas por parte de hordas de incendiários ao serviço dos mais diversos interesses económicos.

Os factos, porém, contradizem estas ideias, evidenciando de forma clara que os grandes incêndios não são seletivos em termos de tipo de coberto mas dependem da forma como o espaço está gerido, que os matos constituem a maior fração de área queimada nos últimos quarenta anos, que metade das ignições se devem a ações negligentes, principalmente associadas a atividades agrícolas e de pastorícia, uma quinta parte se deve a reacendimentos e apenas 28 por centos das ações são intencionais, devendo-se, na sua maioria, a rixas entre vizinhos, a alcoolismo e a perturbações mentais. O problema da severidade dos incêndios em Portugal deve, pois, ser analisado numa perspetiva integrada que tenha em conta os papéis desempenhados pela meteorologia, o ordenamento do território e as atividades humanas. E é nesta perspetiva integrada que se deve colocar a questão do papel determinante das condições meteorológicas no desenvolvimento dos grandes incêndios.

Fazendo uma analogia, compare-se a intensidade do fogo ao brilho de uma lâmpada num circuito elétrico constituído por três fios ligados em série cujas resistências são tanto menores quanto mais desordenada for a paisagem, menos responsável for o comportamento humano e mais severas forem as condições meteorológicas. A falta de ordenamento do território e o número elevado de ignições, que continuam a ter lugar no país, implica que dois dos fios tenham sempre baixa resistência, pelo que o brilho da lâmpada/intensidade do fogo depende na prática do valor da resistência que é controlada pela meteorologia.

A ideia de que os grandes incêndios se resolvem com mais meios de combate, materiais e humanos, e não com a organização de corpos de sapadores florestais que garantam o ordenamento do território e o controlo das ignições nas áreas por que são responsáveis, continuará a permitir o controlo da meteorologia, cujo papel se irá exacerbar nos próximos anos, uma vez que as alterações climáticas, devidas ao forçamento antropogénico, irão contribuir para um aumento em frequência, intensidade e extensão de fenómenos extremos, em particular secas e ondas de calor, cujo efeito concorrente é determinante para a ocorrência de incêndios impossíveis de combater.

Por Carlos da Camara, Investigador do Instituto Dom Luiz, Faculdade de Ciências, Universidade de Lisboa

Nota: Este artigo foi publicado originalmente na edição nº 16 da revista My Planet, em novembro de 2025.