Estão por todo o lado, mas sabemos muito pouco sobre eles. A primeira lista dos líquenes de Portugal continental revela um mundo de uma surpreendente diversidade: dela fazem parte mais de duas mil espécies diferentes.
Encontramo-los nas rochas, nos troncos e ramos das árvores, no solo ou até em muros e telhados. Parecem-nos apenas manchas na paisagem: verdes, cinzentas, amarelas ou alaranjadas. Mas o que é, afinal, um líquen? Na verdade, não se trata de uma espécie única. Resulta antes de uma associação simbiótica entre pelo menos três organismos: dois fungos e um parceiro capaz de realizar a fotossíntese, geralmente uma alga ou uma cianobactéria.
Os fungos constituem a maior parte da estrutura do líquen, recebendo nutrientes produzidos pelo parceiro, através da fotossíntese, e este recebe proteção, por parte do fungo, contra a radiação e a dessecação. Esta relação permite-lhes viver em ambientes muito diversos e colonizar superfícies onde outros organismos dificilmente se conseguem instalar.
Esta capacidade de colonização tem efeitos importantes nos ecossistemas. Ao crescerem sobre as rochas, os líquenes contribuem para a sua alteração e para processos que, ao longo do tempo, participam na formação do solo. Algumas espécies, associadas a cianobactérias, conseguem ainda fixar azoto atmosférico, ajudando a disponibilizar este nutriente essencial ao crescimento das plantas. Os líquenes contribuem, assim, para a estabilização dos solos e participam nos ciclos de nutrientes, criando habitats para outros organismos.
Há ainda outra característica que os torna particularmente interessantes para a ciência. Como não têm raízes e dependem diretamente da atmosfera para obter água e nutrientes, os líquenes são particularmente sensíveis à poluição atmosférica. Por isso, algumas espécies são utilizadas há décadas como bioindicadores da qualidade do ar.
Mais de dois séculos de informação reunida
A primeira lista de líquenes e fungos liquenícolas (fungos que vivem sobre líquenes) de Portugal continental foi publicada recentemente na revista científica Journal of Fungi. Coordenado por Palmira Carvalho, do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, o trabalho reuniu informação dispersa por 381 publicações científicas, abrangendo registos produzidos entre 1788 e 2021. No total, foram analisados 43 718 registos e identificadas 2012 espécies de líquenes e fungos liquenícolas.
Os resultados mostram a riqueza encontrada num território relativamente pequeno. No artigo, os investigadores comparam os números portugueses com os de países de maior dimensão: a Alemanha tem cerca de 2600 formas de líquenes e fungos liquenícolas registadas e Itália cerca de 2800.
Esta diversidade poderá estar relacionada com a localização geográfica de Portugal, onde se cruzam influências atlânticas, mediterrânicas e continentais, mas também com a variedade de condições de relevo, temperatura, precipitação e proximidade do oceano. A combinação cria numerosos habitats e microclimas onde diferentes espécies de líquenes conseguem encontrar condições favoráveis.
Um mapa ainda com muitos espaços em branco
Apesar de extensa, a lista não está fechada, ou seja, sabe-se que não estão ainda identificados todos os líquenes existentes no território continental. Um dos resultados que saltam à vista, neste trabalho, é a desigualdade do conhecimento disponível. Entre as regiões consideradas no estudo, a Estremadura concentra o maior número de registos, enquanto outras zonas do país foram muito menos investigadas. Esta diferença torna difícil saber se uma espécie é efetivamente rara ou se simplesmente ainda não foi suficientemente procurada.
É por isso que os autores apresentam a lista como um ponto de partida. Entre as prioridades para o futuro estão novos levantamentos nas regiões menos estudadas, incluindo áreas protegidas, e uma maior articulação entre trabalho de campo, coleções de herbário e programas de monitorização.
Conhecer melhor esta diversidade permitirá encontrar espécies ainda não registadas, mas também acompanhar alterações na sua distribuição ao longo do tempo. Sensíveis às mudanças nas condições ambientais, os líquenes podem ajudar a perceber transformações relacionadas com fatores como a poluição, o uso do solo ou as alterações climáticas.
Depois de mais de dois séculos de registos dispersos, Portugal tem agora uma referência que reúne o que já é conhecido. E, talvez mais importante, permite perceber quanto falta ainda descobrir.