Portugal quer cidades mais verdes até 2035

19 de Outubro 2026

O Governo aprovou um programa nacional para aumentar os espaços verdes, recuperar linhas de água e tornar os solos urbanos mais permeáveis. O objetivo é preparar as cidades para as ondas de calor e outros fenómenos climáticos extremos.

Poucas árvores e muito asfalto, betão e edifícios. Nas cidades, esta combinação favorece a acumulação de calor e pode tornar os dias de verão particularmente difíceis. Aumentar a presença da natureza no espaço urbano é uma das formas de contrariar este efeito e está no centro de uma nova estratégia nacional. O Programa de Ação para a Resiliência e Restauro da Natureza em Áreas Urbanas (PRO NAT.URBE) foi aprovado em setembro de 2026 e estabelece um conjunto de medidas a desenvolver até 2035, com o objetivo de tornar as cidades e vilas portuguesas mais verdes e resistentes às alterações climáticas.

Mais natureza entre os edifícios

O programa prevê aumentar o número de árvores e os espaços verdes, recuperar rios e ribeiras, criar corredores ecológicos que liguem diferentes áreas naturais e substituir superfícies impermeáveis por solos capazes de absorver a água da chuva.

As intervenções procuram responder a dois problemas que se agravam com as alterações climáticas: o calor extremo e a precipitação intensa. Além de proporcionarem sombra e ajudarem a refrescar o ambiente, os espaços verdes e os solos permeáveis podem contribuir para reduzir o escoamento superficial da água e o risco de inundações.

Está também prevista a criação de redes de abrigos climáticos, com parques, jardins, praças sombreadas e equipamentos públicos que ofereçam condições de conforto térmico durante as ondas de calor, sobretudo às populações mais vulneráveis.

Cinco cidades já estão a testar soluções

Évora, Beja, Vila Real, Guimarães e São João da Madeira são os cinco municípios com projetos-piloto já em curso. A intenção é testar soluções baseadas na natureza em diferentes contextos urbanos, avaliar os resultados e criar modelos que possam ser aplicados noutros municípios. O programa prevê o apoio do Fundo Ambiental, nesta primeira fase, enquanto a expansão das intervenções dependerá da mobilização de diferentes fontes de financiamento.

Até 2030, Portugal deverá assegurar que não existe perda líquida de espaços verdes nem de coberto arbóreo urbano, em cumprimento do Regulamento Europeu do Restauro da Natureza. Entre 2031 e 2035, a ambição é continuar a aumentar a presença da natureza nas cidades.

Quantos graus podem as árvores fazer baixar?

As árvores ajudam a refrescar as cidades de duas formas: proporcionam sombra, impedindo que o sol aqueça diretamente o pavimento e os edifícios, e libertam vapor de água através da transpiração, contribuindo para arrefecer o ambiente.

Um estudo publicado em 2024 na revista científica Communications Earth & Environment, que analisou 182 investigações realizadas em 110 cidades ou regiões, concluiu que as árvores podem proporcionar reduções de temperatura até 12°C ao nível dos peões, graças à sombra e à transpiração. O efeito varia, contudo, consoante o clima, as características das árvores e a configuração do espaço urbano.

Outro estudo, publicado na Nature Communications, analisou cerca de 500 grandes cidades e estimou que os espaços verdes contribuem, em média, para uma redução de aproximadamente 3 °C na temperatura da superfície urbana durante os períodos quentes.

Num contexto de ondas de calor cada vez mais frequentes e intensas, a presença de árvores, jardins e solos permeáveis deixa de ser apenas uma questão de qualidade da paisagem urbana. É também uma forma de proteger a saúde e o bem-estar de quem vive nas cidades.